domingo, 4 de dezembro de 2011

Doença do coração ou dor da alma?

Nem sempre, a doença que motiva alguém a procurar o médico é algo físico. Esse relato é de uma paciente que atendi em um hospital especializado. Trajando roupas simples, ela chegou um tanto preocupada. Quando eu e meus colegas começamos a conversar, ela falou rapidamente que sentia uma 'batedeira' no coração. Pronto! De físico, apenas isso. O resto ela contou logo em seguida. Começou a falar de suas preocupações exclusivamente relacionadas aos filhos. Seu maior medo era morrer e deixá-los sem apoio. Muito ansiosa, relatou que há muito tempo não dormia, pois precisava cuidar da neta, já que a filha trabalhava de madrugada e quando chegava em casa estava cansada e simplesmente dormia. Além disso, tinha medo de a bebê cair do berço durante um cochilo seu. Também relatou que o filho é um jovem problemático, rebelde, que chegou inclusive a agradi-la certa vez. Nessa altura da conversa, a tal 'batedeira' do coração já não era o foco. E quase sempre, éramos tocados pela indagação:
_Será que eu vou morrer, doutor? Eu não posso morrer. Tenho medo.
Pra completar, ela havia sido abandonada pelo marido, por quem também era agredida. Não tinha amigos: dizia que não achava correto ficar por ai falando com as pessoas, que cada um tem sua vida e não deve interferir na do outro. Os irmãos moram longe e há tempos não a visitam. Vez ou outra, durante a conversa, aqueles olhos espantados enchiam-se de lágrimas sofridas. Apesar de tudo, ela só se motivava enquanto pessoa da qual outras dependem. Não, não era algo físico seu problema. A causa é diversa, é social, familiar, sentimental. Aquela mulher trazia em si muitas preocupações acumuladas, responsabilidades variadas, das quais nem todas lhe pertenciam, mas ela as acolhia. A vida a ensinou a se dedicar a tudo, menos a ela mesma. Mas como falar de amor para uma pessoa que poucas vezes ou nenhuma na vida sentiu isso? Será que medidas farmacológicas, tão tradicionais em Medicina, resolveria? Certamente, não. A ironia da situação éramos nós, jovens estudantes e pouco experientes em vida, sermos menos acadêmicos e mais humanos com uma pessoa muito mais vivida. O que dizer a uma mãe preocupada com a família? Provavelmente, qualquer medida médica seria rejeitada caso comprometesse os 'cuidados' com as coisas de casa. Restou-nos indicá-la a um psiquiatra para que este avaliasse os riscos de um distúrbio mental envolvido. Acho que ali estávamos lidando com uma dor da alma, difícil de tratar.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Se o marido não deixa o cigarro, então deixe o marido

Toda essa campanha anti-tabagista na mídia lembrou-me uma paciente que eu e meus colegas atendemos há uns dias. Ela apresentava crises asmáticas desde a infância, mas nos últimos meses têm se intensificado. Ao longo entrevista, em que abordamos toda a sua história clínica, ela nos revelou que seu marido é fumante. E o pior: fuma dentro de casa. Como se não bastasse ela ser asmática, o filho pequeno também o é. Triplo problema: mãe doente, filho doente e marido que fuma. Ainda diria que há um quarto problema: o marido não só não quer para de fumar como também leva amigos fumantes pra casa. Ok, ficou estarrecido(a)? Nós também ficamos. Ainda disse que suas tentativas de convencê-lo a não fumar, ou pelo menos não em casa, foram todas frustradas. Ai, como o atendimento médico também consiste em orientar o paciente, fizemos recomendações básicas: conversar com o marido, aconselhando-o a parar de fumar, a não levar amigos fumantes pra casa, a zelar pela saúde da família...etc, etc. Mas sabe mesmo o que eu tive vontade de dizer? Se você leu e lembra o título desta postagem, já está sabendo. 

domingo, 20 de novembro de 2011

Medicina, política e desrespeito

A Medicina sempre esteve ligada à História. No Brasil, não foi diferente, principalmente quando se trata de história política e social. Semana passada, uma imagem foi bastante veiculada nas mídias audiovisuais e redes sociais. O ex-presidente Lula, há anos ostentando aquela imagem parruda de homem barbado, apareceu sem os volumosos pêlos faciais e, mais ainda, careca. Contraste de imagens? Descaracterização de um homem a cuja personalidade outrora atribuiu-se uma imagem própria? Não. É um paciente que está em tratamento para uma doença grave. Isso bastaria para que fosse respeitada a sua condição de doente. O que dizer das inúmeras piadinhas nas grandes redes, dirigindo-se a ele de modo pejorativo e humilhante? Não faço aqui jogo de ideias, muito menos levanto bandeira política, mas cabe aqui meu papel de reflexão sobre aspectos da saúde e a relação com os pacientes. Em se tratando de doença, não há espaço para brincadeiras. Aquela imagem não era apenas a do ex-presidente da República, mas também de um cidadão que estava enfrentando um dos maiores desafios da sua vida, se não o maior: viver. O respeito deve ser geral, irrestrito e sem distinção de pessoa. E pronto. Agora, ficar questionando como e onde o tratamento vai ser feito, se deveria ou não ser feito no SUS, coisa e tal, é um pouco tanto hipócrita. Ou vão me dizer que os autores das piadinhas também não gostariam de ser tratados no melhor hospital, com a melhor equipe médica e com o melhor da tecnologia em saúde, se também tivessem condição? Não é assim que se avalia a qualidade do sistema de saúde ou a sensibilidade do ex-presidente para os problemas da saúde pública no país. História, Medicina e política se confundem aqui. Só não há espaço para o desrespeito com um paciente, seja ele quem for. 

Novidade no JP

JP está de volta e traz novidades em seu layout. Como acontece em Medicina, nosso blog também está em constante transformação. Espero contar cada vez mais com a participação dos caros colegas na construção desse projeto. Abraço a todos.

Alexandre Silva

sábado, 1 de outubro de 2011

A nós, estudantes de Medicina


O texto abaixo, de Drauzio Varella, foi uma sugestão da professora Dra. Roberta Lira e traz algumas reflexões importantes para todos nós, estudantes de Medicina. Reflitamos então.

"Na coluna de hoje vou resumir as lições mais importantes que aprendi em 40 anos de atividade clínica.
Na verdade, a ideia de reuni-las surgiu semanas atrás, quando o diretor Wolf Maya me convidou para fazer uma pequena palestra para atrizes e atores que interpretavam papéis de estudantes de medicina numa cena da novela das nove.
"Haverá uma classe com alunos e nenhuma dramaturgia, diga o que quiser", propôs ele. Hesitei diante do convite inusitado, mas no fim achei que seria uma boa oportunidade para dizer aos alunos: 1) Tenham sempre em mente que encontrarão mais dificuldade para receber os cuidados de vocês, justamente as pessoas que mais necessitarão deles.
O médico deve lutar por condições dignas de trabalho e por remuneração condizente com as exigências do exercício profissional, mas sem esquecer de cobrar da sociedade o acesso universal dos brasileiros ao sistema de saúde.
2) É fundamental ouvir as queixas dos doentes. Sem escutá-las com atenção, como descobrir o mal que os aflige?
Embora as características do atendimento em ambulatórios, hospitais e unidades de saúde criem restrições de tempo, cabe a nós exigir para cada consulta a duração mínima que nos permita recolher as informações imprescindíveis.
Com a prática vocês verão que ficará mais fácil, porque aprenderão a orientar o interrogatório, especialmente no caso de pessoas prolixas e pouco objetivas. O desconhecimento da história e da evolução da enfermidade é causa de erros graves.
3) Medicina se faz com as mãos. Os exames laboratoriais e as imagens radiológicas ajudam bastante, mas não substituem o exame físico.
 
Esse ensinamento dos tempos de Hipócrates deve ser repetido à exaustão, porque a tendência do ensino nas faculdades tem sido a ênfase nos exames subsidiários em prejuízo da palpação, da ausculta e da observação atenta aos sinais que o corpo emite.
Como consequência, cada vez são mais frequentes as queixas de que o médico pediu e analisou os exames e preencheu a prescrição sem chegar perto do doente.
Não culpem a falta de tempo nem tenham preguiça, em cinco minutos é possível fazer um exame físico razoável. Tocar o corpo do outro faz parte dos fundamentos de nossa profissão.
4) Procurem colocar-se na pele da pessoa enferma. Quanto mais empatia houver, mais fácil será compreender suas angústias, seus desejos e seu modo de encarar a vida.
Não cabe ao médico fazer julgamentos morais, impor soluções nem decidir por ela, mas orientá-la para encontrar o caminho que mais atenda suas necessidades.
5) Medicina é profissão para quem gosta muito. Exige do estudante bem mais do que as outras: seis anos de graduação, dos quais os dois últimos são dedicados ao internato, que não por acaso recebeu esse nome.
Depois vem a residência, com três, quatro e até cinco anos de duração. O dia inteiro nos hospitais públicos, os plantões de 24 horas, as jornadas intermináveis.
É a única profissão que obriga o trabalhador a cumprir horários que a abolição da escravatura eliminou.
Por exemplo, trabalhar o dia inteiro, entrar no plantão noturno e emendar o expediente do dia seguinte; trinta e seis horas sem dormir.
Existe outra categoria de profissionais em que essa prática desumana faça parte da rotina?
Se o exercício da medicina já é árduo para os apaixonados por ela, é possível que se torne insuportável para os demais.
Se vocês escolheram segui-la apenas em busca de reconhecimento social ou recompensa financeira, estão no caminho errado, existem opções menos sacrificadoras e bem mais vantajosas.
6) Medicina é para quem pretende estudar a vida inteira. É para gente curiosa que tem fascínio pelo funcionamento do corpo humano e quer aprender como ele reage às diversas circunstâncias que se apresentam.
O médico que não estuda é mais do que irresponsável, coloca em risco a vida alheia.
7) Finalmente, para que foi criada a medicina? Qual a função desse ofício que resiste à passagem dos séculos?
Embora a arte de curar encante os jovens e encha de prazer os mais experientes, não é esse o papel mais importante do médico. É interminável a lista de doenças que não sabemos curar.
A finalidade primordial de nossa profissão é aliviar o sofrimento humano."

*obs.: o título do texto foi readaptado.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

JP quer saber - Qual a maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde?

Em consulta popular com pacientes atendidos em uma instituição hospitalar do interior do Ceará, o Blog Jaleco Pensador questionou qual a maior dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Os resultados demonstram que o atendimento dos profissionais de saúde, categoria que inclui atraso e qualidade do atendimento, e serviços oferecidos, que inclui serviços e exames complexos, foram apontados como os maiores problemas do SUS que causam insatisfação na população, ambos com 36,5% de indicação espontânea. Outros problemas como transporte ao local de atendimento e demora na marcação de consultas foram apontados por 15,4% dos entrevistados. Interessante observar também que 11,6% não apontaram nenhuma dificuldade. E você, o que pensa sobre isso? Na sua opinião, qual o maior problema de acesso aos serviços de saúde?

domingo, 7 de agosto de 2011

Sim, não somos infalíveis

Muitas vezes, a Medicina depara situações que corroem a ideia de infalibilidade. Nós, estudantes, somos conduzidos a crer que o conhecimento adquirido ao longo de vários anos de estudos no torna aptos a resolver todo e qualquer problema. Para isso, basta uma caneta e um bloco receituário nas mãos. Quem dera tivéssemos esse poder. Mas não temos. A realidade social de muitos pacientes é um verdadeiro desafio para a prática médica. Driblar as dificuldades e os problemas sociais dos nossos pacientes é a chave do sucesso no combate às doenças na maioria das situações em Saúde Pública. Pobreza, instabilidade familiar, dependências, tudo isso constitui, do meu ponto de vista, problemas de saúde indiretamente, já que impedem que as pessoas estejam plenamente saudáveis, ou seja, vivenciem um estado de bem-estar. Um fato que presenciei esta semana durante atendimento ambulatorial exemplifica essas situações. A paciente, uma idosa cuja idade não me arriscaria a dizer --pois o tempo e o sofrimento mascaram a face das pessoas--, chegou ao consultório sozinha e cansada da espera pelo atendimento. Notável era sua feição de cansaço, de vencida pelas amarguras da vida. Vestia roupas surradas, humildes, tão diferentes das que usávamos naquele mesmo espaço. O objetivo era mostrar ao médico o resultado dos exames para uma possível indicação cirúrgica. Após análise, o médico disse que seria necessária uma cirurgia. Então, num desabafo incontido, a idosa começou a chorar e falar da sua situação. Ela morava só com o marido, de quem cuidava. Aliás, ex-marido que a deixou por motivos não mencionados, mas compreensíveis pela nossa experiência. O homem vivia prostrado, dependente da pobre senhora pra tudo; os filhos estavam distantes. O pior, na minha opinião, foi ela dizer que há muitos anos queixava-se da mesma dor e não fazia nada, simplesmente suportava. Limpava a casa, pegava em pesos exagerados, "batia" roupas, e tudo isso causava dor.
__Mas a senhora sabe que não pode fazer grandes esforços!__disse o médico.
__E se não for eu, quem vai fazer, doutor?!
Durante o exame físico realizado pelo médico, soltava gritos de dor, chegando a implorar "pelo amor de Deus, moço, num aperta ai não que dói". Senti que aquele choro era algo acumulado durante anos, e que bastou ela se sentir alvo da nossa atenção para desabar em lágrimas. Parecia fácil para nós fazermos a indicação cirúrgica, mas quem assumiria tamanha dedicação com um homem prostrado? Quem assumiria o comando da sua casa durante os dias de internação? Tudo bem, talvez não fosse problema nosso, mas também não poderíamos ser tão egoístas a ponto de achar que só um pedaço de papel assinado e carimbado resolveria. Como tratar esse senhora que tanto precisa de ajuda sem comprometer suas responsabilidades? E então, compreendi que nem tudo tem solução nas páginas dos volumosos livros de Medicina. Sim, não somos infalíveis.

sábado, 18 de junho de 2011

Fazer ou não a histerectomia?

A rotina médica também inclui tomar decisões difíceis em momentos imprevistos. Pois pensando nisso, relato aqui uma situação que presenciei no centro cirúrgico nesses últimos dias, durante meus plantões de férias. A paciente fora indicada para cirurgia em caráter de emergência devido a uma hemorragia pélvica indefinida. Quando o cirurgião fez incisão cirúrgica e alcançou a cavidade pélvica, identificou o sangramento e encontrou o útero bastante alterado em aspecto, com sufusões hemorrágicas, caracterizando o útero de Couvelaire. O cirurgião aventou a possibilidade de histerectomizá-la, pois o estado do útero poderia complicar para algo mais sério, inclusive com risco para sua vida. E ficou aquele clima de indecisão na sala de cirurgia, todos olhando um para o outro sem saber o que fazer de fato. Então, começaram a interrogar sobre a vida da paciente, a idade, quantas gestações, idade do primeiro filho etc. A paciente, atualmente com 23 anos, tinha um histórico de 8 gestações, sendo que na última o bebê nasceu morto. Ao saber dessas informações, a equipe achou viável a possibilidade de retirar o útero. E assim o fizeram, com o consentimento de um ginecologista experiente. Como a paciente não havia sido comunicada sobre essa possibilidade, até porque os médicos não sabiam da gravidade do caso, poderia haver algum problema de ordem ética que motivasse uma ação legal contra a equipe e o hospital. Tomar decisões importantes em situações complicadas é uma tarefa árdua que compete ao médico, e este deve estar bem preparado para lidar com essas situações, conscientizando-se que o paciente poderá questionar judicialmente o que sua atitude.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Espelho médico


Essa é uma citação de Sir Willian Osler, no livro "Medicina Centrada na Pessoa", de Moira Stewart:
"Insistiria com vocês...para que prestem mais atenção ao doente do que às características especiais da doença...Lidando, como fazemos, com a pobre e sofredora humanidade, vemos o homem sem máscaras, exposto em toda sua fragilidade e fraqueza, e vocês devem manter o coração aberto e maleável para que não menosprezem essas criaturas, seus semelhantes. A melhor maneira é manter um espelho em seu coração, e quanto mais vocês observarem suas próprias fraquezas, mas cuidadosos serão com seus semelhantes".

E é um verdade. Se quisermos conhecer as fraquezas dos nossos paciente, precisamos primeiramente descobrir onde e como estão as nossas. Mas isso não se faz ao acaso, faz-se por autocrítica. Deveríamos nos perguntar o quão forte somos para podermos ajudar os outros. Os pacientes nos chegam espantados, despidos de sua face cotidiana, sem nenhuma autoproteção, porque naquele momento são passivos e ávidos por alguém que os ajude. Esse alguém nem sempre sabe reconhecer o que lhe causa mais sofrimento, que às vezes nem é a doença em si, mas o contexto no qual a pessoa e a doença juntos estão inseridos. É dever do médico cuidar disso, e de nós, estudantes, aprender a reconhecer quando dói o corpo e também a alma. Vivenciamos experiências de vida que nos fazem ser a parte diária de um todo que compõe nossa personalidade maior, com muitos defeitos, mas com qualidades que podemos aproveitar e aperfeiçoar. Solidariedade, por exemplo. Se cada um, estudantes e médicos, tiver um momento diário dedicado ao espelho do coração, verá alguém que também padece de fraquezas e que precisa reconhecer as suas para aprender a lidar com as dos outros. Façamos isso então!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

JP video - A dificuldade de médicos formados no exterior para revalidar diplomas no Brasil

A reportagem que o Fantástico produziu no último domingo, dia 5, trata da dificuldade que os médicos formados no exterior, especialmente em países vizinhos ao Brasil, têm para revalidar seus diplomas no território nacional, para assim poderem exercer suas atividades legalmente.

terça-feira, 7 de junho de 2011

JP cult - Dotô de atitude


Essa postagem inaugura uma nova sessão temática no Blog, compartilhando produções literárias e artísticas relacionadas à saúde e à Medicina. Para começar, publico um texto em cordel de autoria do meu amigo e colega de faculdade Antônio Herculano, que foi apresentado num seminário sobre Medicina Centrada na Pessoa, durante o módulo de Assistência Básica à Saúde 4. Espero que gostem, pois na sala de aula foi um sucesso.


Dotô de atitude


Já dizia um famoso dotô no meu sertão
 Pra sê sadio os homi tem que se privinir mas sem se  esquecê da promoção 
 Pois já vou contar um causo que ouvi com tristeza e indignação
 Cumade Sam era viúva e já passava dos oitenta
 Só suspirava por causa d'uma gambiarra socada nas venta
  
Num tinha mais famia
  Só Glória, única fia
  Também tinha o dotô Arom
  Cabra danado, cuidadoso com a cumade, no mais, um homi bom

Antigamente dona Sam até se alegrava reparando na televisão
  Hoje, que Deus guarde, se agonia só de pensar que vai pra debaixo do chão
  Despombalecida, a coitada correu pros dotô
  Quiseram internar, mas a cumade logo se inconformô
  Dotô Arom vendo toda aquela arrumação

Se avexo logo de fazer uma negociação
  Quis saber da dona Sam o que fazer pra melhorar
  Respondeu ela que queria um tempo pra pensar
  Foi então que a cumade resolveu falar
  Que escrever pro jornal da cidade pudesse ajudar

Cumade Sam escreveu
  E nosso sinhô a juventude devolveu
  Sem esquece de agradece a midicina e o dotô de atitude
  A vida da cumade, de novo, tinha saúde.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

JP opinião - Humanização é fundamental, por Antônio Carlos Lopes


Vivemos tempos de grande avanço tecnológico. Com todas as vantagens da globalização, verificamos, ao mesmo tempo, entristecidos, o distanciamento entre as pessoas. Assim como em nossa vida particular, este distanciamento ocorre no campo profissional e também nos consultórios e hospitais. Cada vez é mais comum ver médicos e pacientes dando lugar a números, exames e diagnósticos tornarem-se códigos, e a comunicação perder sua essência. Aquele médico de família, que acompanhava todos os seus integrantes ao longo de suas vidas, não existe mais. Ou restam pouquíssimos. Hoje temos um estranho avaliando outro estranho - em apenas alguns minutos de curto diálogo; provavelmente, nunca mais se encontrarão. É de se lamentar. Entretanto, parece que, aos poucos, tanto os profissionais de medicina como pacientes vêm repensando conceitos. Constatam que nada substitui o tratamento humanizado, nada é mais importante do que o médico que tem nome e rosto e que conhece o nome e o rosto de seu paciente. É tempo de recuperar nossas raízes, de resgatar do bom e velho médico, e suas principais qualidades sem, é claro, abrir mão de toda a modernidade a que temos direito. O resgate da humanização, tão bem inserida naquele contexto de antigamente, deve pautar sempre a prática da medicina, com principal objetivo de oferecer assistência digna e de qualidade à população. Seja na rede pública ou privada, o médico necessita de tranquilidade e deve ter todas as ferramentas necessárias para um atendimento no qual possa oferecer o melhor do seu conhecimento, toda a sua atenção e, principalmente, todo o seu respeito. Ele precisa de tempo suficiente para conhecer o paciente, descobrir suas queixas, averiguar seu passado, seus anseios e angústias, e fazer com que saia aliviado, com perspectiva de ter seu problema encaminhado. Enfim, queremos ver novamente o paciente confiando sua saúde com a mesma tranquilidade que confiávamos antigamente. Ainda não é o que acontece na maioria dos casos. Em parte porque este profissional vestido de branco não dispõe de condições adequadas ao aprofundamento da relação com seu paciente. Pior, é pressionado por todos os lados. Na saúde pública pelas filas intermináveis, falta de equipamentos etc. Na rede privada, são as pressões das operadoras de planos de saúde, baixa remuneração e o constante descredenciamento da rede conveniada que frequentemente engessam o médico nas suas atividades. A insegurança comum a médicos e população gera não apenas atraso em diagnósticos ou tratamentos; também traz consequências por vezes desastrosas. Ou seja, com todos os avanços, equipamentos de última geração e descobertas, temos hoje um dos piores cenários que este país já conheceu no sistema de saúde. A medicina é humana em sua essência, feita de humanos para seres humanos. Não é possível mais assistir à sua fragmentação em duas medicinas - uma para os pobres e outras para os ricos. Dar e receber assistência médica de qualidade e universal, mais do que um anseio, é um direito de todos. 

*Antônio Carlos Lopes é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica


sábado, 28 de maio de 2011

Satisfação ou bom senso?

Muitas vezes, o médico se vê diante de um impasse: considerar o desejo do paciente em relação a conduta terapêutica ou agir conforme as condições do ambiente de trabalho? A primeira alternativa é inspirada no que se denomina Medicina Centrada na Pessoa, em que o paciente é plenamente tomado pelos seus aspectos socioculturais, experiência da doença e opinião sobre a conduta médica, não apenas pela doença em si. A segunda é diretamente ligada aos problemas de infraestrutura e de equipamentos de saúde, financeiros ou logísticos. É este o que pesa na rede hospitalar pública. Vou exemplificar com um caso que presenciei em um plantão de emergência de um grande hospital do interior. Um jovem havia se acidentado de moto, sem capacete, e chegou na emergência queixando-se de dor e com lesões por todo o corpo, alguns na cabeça. Junto a ele, veio todo um aparato composto por duas irmãs muito preocupadas - a mais velha parecia sua mãe, de tanto cuidado - seu pai e uma outra pessoa que se apresentou apontando para o paciente e chamando-o de "futuro eleitor". Fiquei sem palavras. Quando me dirigi ao paciente para fazer as avaliações iniciais de atendimento, todos se aproximaram de mim e começaram a falar:
__Ele tá sentindo muita dor!
__Ele tem gastrite nervosa!
__Ele bateu a cabeça, tá mais fundo aqui do lado!
__Olha o joelho dele, o braço, o ombro tá arranhado...
E por ai foi. Precisei pedir que eles se afastassem para que eu pudesse continuar e depois eu conversaria mais com eles com mais calma. O médico plantonista ainda não havia chegado, e logo que estivesse lá eu o informaria sobre o paciente. A situação complicou quando comecei a fazer perguntas de triagem para tomografia (se ele havia vomitado, se ficou inconsciente, coisas assim).
__Porque você tá perguntando isso? Ele vai precisar de tomografia pra ver a cabeça, né?!
De acordo com as respostas que até mesmo o paciente me forneceu (ele estava consciente, até demais), respondi que não seria necessária a tomografia. Quando o médico chegou, fez mais algumas avaliações e chamou os acompanhantes. Enquanto eu fazia as suturas, ouvi o médico dizer:
__Ele não precisa de tomografia, não adianta insistir. É desnecessário, e outras pessoas que realmente precisam ficariam sem fazer por isso; vou pedir apenas um raio-x...
A família não compreendeu, até porque estavam muito preocupados com o jovem e naquele momento o que lhes interessava era saber se o rapaz ficaria bem, se não tinha nada mais grave. Ficaram descontentes, apesar de tudo que fora feito. Como o hospital é público e os recursos são limitados, não é possível fazer determinados exames caros para todos os pacientes; por isso, existe triagem dos casos.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

JP video - Cadê os pediatras?

Assistam à reportagem sobre a falta de pediatras no Brasil exibida no Fantástico em 24/04/2011. É preocupante saber que uma especialidade tão importante está desvalorizada e em falta na rede de atendimento público do país. Confiram!

domingo, 17 de abril de 2011

Eu não quero tomar isso

O que fazer diante de um paciente que se recusa a seguir a recomendação e prescrição médicas? Durante atendimento no ambulatório, presenciei uma situação dessa. Acompanhada de sua mãe, a paciente entrou no consultório e observou-me com estranhamento, talvez por eu ser um jovem vestido de jaleco branco atrás de um birô. Pediu à mãe, em baixo tom de voz, que não me contasse nada, o que ouvi em sussurros. Ela era jovem (mais que eu) e sofria de Depressão há muito tempo, sendo tratada no CAPS local. Cumprimentei-as-as com um "bom dia" ao qual não obtive resposta por parte da moça. Contrariando a filha, a mãe começou a falar e entregou uma carta de recomendação do médico que encaminhou a paciente. O médico que eu acompanhava neste dia havia saído, mas voltou pouco tempo depois. Vendo aquele senhor com "cara de médico", a moça despertou e começou a falar também.
__Doutor, eu não quero mais tomar isso. (Falou, apontando com força para a receita médica da consulta anterior)
A paciente se queixava dos efeitos colaterais da medicação, negava-a com veemência. Reclamava de tudo, da vida, das pessoas, da mãe que estava ao lado, dos médicos que a atendem; só faltou reclamar de mim! Eu e o médico tentávamos convencê-la da necessidade de tomar os remédios, mas era trabalho perdido. Perguntamos se ela estudava ou trabalhava, ao que ela respondeu negativamente, inclusive com repúdio. Sua apatia pela vida era notória; não tinha ânimo para nada, nem para tratar a enxaqueca de que sofria também. Só reclamava, reclamava, reclamava e depois chorou.
__Ela não faz nada, doutor! Só come e dorme.__ Disse a mãe.
Consciente de que suas tentativas seriam frustradas, o médico consentiu em tirar um dos medicamentos ( o da enaqueca, já que um dos outros medicamentos que ela tomava tinha efeito semelhante), mas pediu à paciente que procurasse mudar seus hábitos de vida. Ela engoliu alguns choros, levantou-se e saiu do consultório sem se despedir. Educadamente, a mãe agradeceu e também saiu. Depois de tudo, refleti como é difícil convencer pacientes a cuidarem de si mesmo quando o que lhes falta, na verdade, é desejo pela vida.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Além do massacre, uma mente em conflito

O massacre de 12 crianças em uma escola no Rio de Janeiro comoveu o país e o mundo. Pequenos seres tiveram suas vidas interrompidas de modo brutal, violento. Como alguém é capaz de assassinar crianças inocentes? O propósito dessa postagem não é discutir o aspecto cruel do fato, até porque isso já está sendo feito de forma massiva pela mídia. Pretendo levantar aqui a discussão sobre saúde mental, bullying e seus efeitos para a personalidade das pessoas. A mente humana é complexa, e não há protótipos pré-estabelecidos¹. Será que em algum momento o autor dos crimes passou por uma avaliação psiquiátrica? Acompanho o noticiário na TV, mesmo com limitações de tempo, em que pude perceber que não se trata simplesmente de crueldade. É preciso avaliar além disso. Conhecidos de Wellington afirmaram que ele foi vítima de bullying quando criança, na escola onde estudou que a mesma do cenário do crime. Além disso, sua mãe era esquizofrênica, o que reforça o indício de que ele também fosse. Prova disso são os contatos com redes terroristas possivelmente inventadas por ele. Atentemos também para o extremismo religioso tão presente nos últimos registros deixados em vida. A carta, delírio de conteúdo místico e religioso² que Wellington escreveu, contém indícios do que ele possivelmente sofreu quando criança e ao longo da vida e dos reflexos que isso gerou em sua mente. Esse é o foco atual da Psiquiatria: é a vulnerabilidade genética de cada indivíduo ao estresse do meio ambiente, que pode desencadear vários transtornos mentais. Talvez o bullying tenha sido o "gatilho" que disparou o transtorno psiquiátrico de Wellington, que já teria uma predisposição genética.  A esquizofrenia é um distúrbio psiquiátrico crônico, mas cujo tratamento é eficaz, com antipsicótico, terapia ocupacional e psicoterapia. Salvo situações de surtos psicóticos, os portadores desse transtorno não são agressivos e podem ter funcionalidade e serem reabilitadas. É importante sabermos que uma grande parcela da população é portadora de algum transtorno psiquiátrico, e o que é pior, uma parte desta não é tratada ou diagnosticada. A importância da saúde mental reside nessa questão também, para que situações como a do massacre do Realengo ou outras de menor gravidade sejam evitadas. E a sociedade precisa ser participante ativa nesse processo. Que essa tragédia não se resuma a dias e dias de lamentações, homenagens e exibições na mídia, mas que seja o ponto de partida para uma reflexão maior sobre saúde mental e a influência do meio no comportamento das pessoas, a exemplo do bullying e da esquizofrenia.



*1,2:  frases extraídas do texto "Massacre do Realengo-uma análise crítica", por  Joel Rennó Jr.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Do sonho à realidade: 10 anos da FAMED-Sobral



"Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas um sonho que se sonha junto é realidade"

Esse trecho da música Prelúdio, de Raul Seixas, sintetiza o sentimento que envolveu a criação do Curso de Medicina de Sobral, em 2001. 10 anos se passaram, e essas palavras nunca estiveram tão vivas como nos dias de hoje. Em cada aluno, em cada professor, em cada funcionário, existe um forte sentimento de admiração e gratidão pela conquista de tão importante centro de conhecimento médico e, acima de tudo, de formação de cidadãos conscientes do seu papel para a sociedade. Aos poucos, nossa faculdade tornou-se o que é hoje: uma família, formada numa miscelânea de individualidades e objetivos comuns, que miram o futuro sem esquecer a experiência do passado. A cada ano, essa família se enriquece com novos filhos, ao mesmo tempo em que vê o mundo receber aqueles que por aqui passaram e que agora trilham um novo caminho. O belo prédio que que salta aos olhos da sociedade, ainda enche de orgulho até mesmo os mais veteranos, como se aqui fosse a sua casa. E de fato é. Não por ser onde passamos a maior parte dos nossos dias, mas porque também é onde vivenciamos experiências que fortalece nossa identidade como humanos. Assim como uma criança cresce aos poucos, nosso curso começou pequeno, mas cheio de sonhos e determinação. E hoje, é tudo isso que vivenciamos diariamente: conhecimento, humanismo, amizade, senso crítico. Nesse mês de abril, comemoramos os seus 10 anos de fundação. Parabéns, FAMED-Sobral, aos alunos, aos professores, aos servidores, aos nossos pais, a todos que fazem essa família ser a certeza de que todo sonho que se sonho junto é realidade.

sábado, 2 de abril de 2011

JP vídeo - Desfecho trágico de um problema sem fim

Essa reportagem, exibida no Globo Repórter de sexta dia 01/03, não é apenas mais um vídeo sobre a crise na Saúde Pública do país. É o registro de uma tragédia anunciada, que culminou na morte de uma criança devido à falta de equipamentos e de estrutura necessária para o atendimento de qualidade. Senti-me na obrigação de postar esse vídeo, para que sejamos cada vez mais conscientes dos problemas que poderemos enfrentar, das vidas que estarão sob nossos cuidados, da falta de estrutura  prejudicial ao bom atendimento médico. Observem o jovem médico que enumera uma série de especialidades médicas para avaliar cada parte "doente" da paciente, sem que ele se manifeste para fazê-lo. Mas ele não estudou essas mesmas especialidades na faculdade? O detalhe é que a paciente estava sentindo fortes dores no momento, o que configura um caso de urgência. E mesmo assim ela ainda teria que procurar cada um desses especialistas? Bom, não vou mais escrever sobre o vídeo. Assistam e comentem, compartilhem suas opiniões sobre esse problema que é de todos nós e que nos caberá, no mínimo, amenizar.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Vocês têm consciência da profissão que escolheram?

Foi com essa pergunta que uma paciente começou a nos contar sua história durante nossas tradicionais visitas às enfermarias. Fomos entrevistar e acabamos sendo entrevistados. Mas a indagação da paciente tem um valor importante e deve ser motivo de reflexão. Medicina é uma profissão encantadora, com seus altos e baixos, vitórias e derrotas, mas que nos deixam extremamente gratos por ajudar as pessoas. Isso nos motiva a continuar essa jornada tão difícil. Somos retribuídos com cada vida salva, com cada abraço de agradecimento, com cada sorriso por ter sua saúde de volta, por cada filho que volta as braços dos seus pais...enfim, são coisas que emocionam e que nos fazem mais completos como pessoas. Mas também tem o lado difícil, aquele em que não conseguimos salvar alguns pacientes, não podemos dar o conforto que eles precisam, não somos capazes de aliviar uma dor, dificuldades que nos impedem de exercer a Medicina com qualidade. Nós, estudantes, devemos nos incluir nesse equilíbrio tão tênue. Responsabilidade é a palavra que resume o que a paciente quis nos dizer. Vendo-nos ainda jovens, teve o instinto materno de nos educar pra vida que optamos viver, como se fôssemos seus filhos, ensinando-nos a ser mais humanos. Com certeza, ela já teve alguma experiência negativa com um médico, diante de seu histórico de 4 AVE's (acidentes vasculares encefálicos), e por isso ela não quer que sejamos responsáveis por experiências semelhantes em outros pacientes. Cada vida pela qual seremos responsáveis reforça o compromisso de sermos o melhor possível, como médicos e como humanos. Que sua indagação se torne uma mensagem de compromisso e incentivo sempre constante em nossas vidas.

domingo, 27 de março de 2011

JP Charges - Paciente chegando ao balcão do hospital...


A charge trata de uma realidade do atendimento público em Saúde, a qual não precisa ser discutida aqui, mas apenas refletida. Então, façamos isso!

quarta-feira, 23 de março de 2011

Eu rezo e mando pro "homem do anel"

Nos últimos anos, a Medicina tem se valido cada vez mais da alta tecnologia, do diagnóstico preciso baseado em imagens tridimensionais, em análises moleculares etc. Mas dificilmente isso vai desviar muitos pacientes da crença no chamado "setor popular" da assistência em saúde, no qual se incluem as rezadeiras, curandeiros etc. É sobre isso que escrevo aqui. Nessa quarta, dia 23, eu e um grupo de amigos da faculdade fomos conhecer uma umbandista (como ela se referia), afim de obter informações sobre a prática da Umbanda como atividade do módulo de Assistência Básica à Saúde. Claro que seria nosso primeiro contato, e que por isso estávamos um pouco nervosos, ou talvez fosse apenas curiosidade mesmo. Acompanhados da agente de saúde do bairro, chegamos ao terreiro de umbanda que fica contíguo à casa da mulher. Logo nos surpreendemos com a "decoração" do ambiente, cheio de imagens sacras e outras nem tão sacras assim, velas multicolores acesas, objetos enigmáticos que vez ou outra desviava nossa atenção da conversa com a senhora. Antes de iniciar a entrevista, ela nos pediu permissão para fumar um cigarro. Simples, carregada de simbolismo nas palavras, ela falou sobre seu trabalho como umbandista, como começou, de onde recebeu o dom, as pessoas que a procuravam, sempre se referindo a expressões típicas, as quais interrompíamos quando o significado delas não era compreendido. Uma vida de fenômenos sobrenaturais nos foi relatada, o que instigava ainda mais nossa curiosidade. Entre "atoações", giros, guias e entidades, ficávamos admirados com a riqueza simbólica dessas práticas e com a crença das pessoas, segundo o que ela nos contava. Interessante também perceber que ela não contradiz os médicos que atendem as pessoas que a procuram. Pelo contrário, ela recomenda que se faça exatamente como o médico orienta e ainda reforça o tratamento com preparações caseiras que ela ensina a fazer; são chás de tudo que se possa imaginar! Quase sempre, durante as consultas - sim, ela chama o serviço de Umbanda de consulta - ela orienta as pessoas que procurem o auxílio médico, após fazer o "trabalho".
__Eu rezo e mando pro "Homem do anel".
Ao final, despediu-se convidando-nos para a "festa do Boi-Preto", em breve. Confesso que fiquei curioso em saber como é essa festa. Enfim, foi muito interessante conhecer esse componente cultural tão vivo na vida de muitas pessoas, de diversas classes, que, independente de religião, acreditam que a fé pode curar. É mais um aprendizado para nossa formação como médicos enraizados na cultura do seu povo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Abaixo de Deus, só Ele mesmo.

"Abaixo de Deus, o médico", disse a esposa de um paciente ao final da apresentação deste numa sessão clínica de um hospital de Sobral, diante da qual ficamos um tanto satisfeitos e outro tanto orgulhosos da nossa escolha profissional. Mas essa frase me pôs a pensar, e aqui registro brevemente meu pensamento. Se interpretamos esses ditos populares como agradecimento, retribuição, podemos até ficar felizes por estarmos ajudando pessoas que tanto precisam; mas se interpretarmos como reconhecimento de uma "superioridade" que, ao meu ver, não existe, devemos repensar um pouco e observar que somos apenas pessoas que tiveram oportunidade de adquirir conhecimento e habilidades biomédicas. Isso não nos diminui, nem nos supervaloriza, apenas constata que somos iguais, e como tais devemos ajudar uns aos outros. No final, é melhor acreditar que abaixo de Deus, só há Ele mesmo.

sábado, 12 de março de 2011

JP Vídeo: O problema crônico dos hospitais públicos

Esse vídeo foi uma reportagem da Record e trata dos problemas da Saúde Pública no Brasil. É importante que discutamos essa polêmica, para que no futuro sejamos construtores de um sistema de saúde de qualidade e mais humanizado. Comentem, questionem, discutam!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Eu só queria brincar o carnaval

Essa postagem é mais um registro de uma paciente especial. Recém-chegado de um Carnaval maravilhoso, fui incumbido de fazer a anamnese de uma paciente para apresentar o caso numa sessão clínica tradicional. Chegando ao leito a que fui destinado, fui surpreendido por uma reação de espanto da paciente. Era uma garotinha de 13 anos e que se queixava de fraqueza muscular e dormência nas pernas.
__por favor, injeção de novo não! O senhor não vai tirar mais sangue de mim não, né?!
Ela estava assutada, pois já haviam lhe tirado muito sangue, à custa de várias "furadas", como ela mesma referiu, e pensou que eu seria mais um a fazê-lo. Identifiquei-me como um estudante de Medicina que precisava colher algumas informações sobre sua história clínica. Foi contagiante o seu sorriso de alívio! Ela e sua mãe, uma senhora muito sorridente (dessas pessoas simples que não tiram um sorriso gostoso do rosto), começaram a me contar suas histórias. Sim, "suas" porque a mãe não perdeu a chance de falar sobre ela também.
A menina olhou bem para o jaleco e notou meu nome estampado, desabafando a seguir:
__Alexandre, eu só queria brincar o carnaval, correr na rua; minhas amigas todas foram para as festas e eu fiquei aqui.
A mãe começou a rir, o que se repetiu quase todas as vezes que a filha falava alguma coisa. A menina entediada de estar naquele leito de hospital desejava como nunca sair dali e poder voltar à sua vida normal. Sempre muito alegre, no auge da sua mocidade, com todos os trejeitos de uma pré-adolescente da geração Restart, mas ainda assim notava-se sua angústia pelo Carnaval perdido. Ao mesmo tempo em que eu a examinava, ela reagia como se os procedimentos do exame fossem brincadeira. Quisera nós que tivéssemos essa mesma visão das coisas...certamente, a vida seria muito mais simples.
 Falava alto, atendia o telefone e conversava com as amigas, enfim...era uma garota de 13 anos querendo viver o seu mundo longe daquele lugar onde os blocos não existem, as fantasias se desfazem e os foliões não saem na avenida.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

dica do JP: Um golpe do destino (The Doctor)

Deixo aqui uma sugestão de filme sobre a temática do comportamento dos médicos, em que é feita uma crítica a certos desvios de conduta muito presentes no cotidiano de um hospital, bem como a relação médico-familiar. Jack McKee (Willian Hurt) é um médico ocmpleto: bem sucedido, rico e sem problemas na vida. Até receber o diagnóstico de que está com câncer. Agora ele passa a ver a Medicina na perspectiva de um paciente. Esse filme foi exposto na 1ª aula da disciplina de Psicologia Médica, no módulo de Desenvolvimento Pessoal.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O paciente e sua cultura

Em recente atividade do módulo de Assistência Básica à Saúde, coordenado pela profa. Dra. Roberta Lira, fizemos uma série de discussões sobre os aspectos sócio-culturais dos pacientes e como podem interferir no seu entendimento sobre a doença. Divididos em grupos, fizemos leitura de textos orientados e expomos as principais idéias, o que resultou em diálogos produtivos. De fato, o paciente deve ser considerado não só pela sua condição patológica, mas também pelo meio social e cultural no qual está inserido. Cada paciente tem suas peculiaridades, e não cabe ao médico nem a ninguém julgá-los. O que podemos fazer é orientá-los sobre prevenção, hábitos de vida e tratamento respeitando e incluindo o meio social do indivíduo, seja no aspecto religioso, cultural etc. Se o paciente diz que acredita em "rezadeiras", devemos considerar esse fato quando da recomendação de um esquema terapêutico:
_ o senhor toma todos esses remédios, nos dias e horas marcadas, e depois, se quiser, pode procurar a rezadeira!
Muitas pessoas creem mais em medidas alternativas do que no próprio médico, o que deve ser superado  tentando convencer da importância da consulta médica, assim como uma rezadeira ou um chá são importantes. Em se tratando de questões religiosas, é preciso ter mais cuidado ainda no trato com o paciente. Geralmente, os fundamentos religiosos, especialmente nas pessoas menos esclarecidas, costumam ser as únicas verdades existentes. O médico pode e deve aconselhar o paciente a manter um vínculo de fé, seja qual for. Pesquisas comprovaram que a fé pode estimular o sistema imunológico, ajudando no combate e na prevenção de doenças.
O importante de toda discussão a respeito é que os aspectos culturais e religiosos pode ser um aliado na recuperação do paciente e que ao médico não cabe discutir as crenças individuais de cada um, mas sim saber como usá-las para criar uma relação de empatia com os pacientes.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Brasil deve ser o primeiro país do mundo a receber vacina antidengue


Após noventa anos de estudos, o Brasil pode ser o primeiro país a receber a vacina contra a dengue, que está em fase final de preparação. No próximo mês, o laboratório responsável pela vacina irá propor ao governo brasileiro um acordo para que o país tenha prioridade da distribuição da vacina.
O imunizante, desenvolvido pela Sanofi Pasteur, está na terceira fase de testes, que começa ainda este ano, com 30 mil pessoas. Sendo comprovada a eficácia do produto, o primeiro pedido de registro e autorização será feito daqui a dois anos. Para a empresa, o objetivo é ter o produto no mercado mundial em 2015. Estamos caminhamos para o controle de mais uma doença. Para alguns países, isso será fundamental", disse o vice-presidente da companhia, Michael Watson.
"A luta contra a dengue exige um forte compromisso global de todos os parceiros da saúde pública. A primeira vacina contra a dengue está em fase final de desenvolvimento. O Instituto Internacional de Vacinas (IVI) será um jogador fundamental na facilitar os debates entre políticos, com o objetivo de assegurar que, uma vez licenciado o vacina será disponibilizada para as populações que mais precisam de uma forma atempada, disse o vice presidente sênior de Vacinas, Olivier Charmeil.
"A cada ano, cerca de dois milhões de pessoas com dengue hemorrágica necessita de internação representando um encargo significativo para os sistemas de saúde frágil de desenvolvimento e endêmicas nações ", disse o Ragnar Norrby, presidente do Conselho de Curadores da IVI. "Com uma vacina contra a dengue no horizonte de curto prazo, esta colaboração irá concentrar em acelerar a sua adopção e introdução e torná-lo acessível para aqueles com maior risco de dengue.
fonte: Isaude.net

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O que faz valer a pena

Cursar uma graduação em saúde, especialmente Medicina, é uma jornada cansativa, luta diária que exige muita dedicação e é repleta de ansiedade, o que costuma exaurir nossas forças também. São 6 anos de muita leitura, muita prática, algumas vitórias, algumas ilusões, decepções etc. A vida pessoal chega a ser esquecida por vezes. Mas tudo isso tem uma razão especial. Lidar com pessoas diferentes, suas peculiaridades, histórias de vida, quase sempre um ensinamento pra nós. E cada história é uma oportunidade de acrescentar algo da valor na vida. Nós contribuímos com a promoção da saúde do paciente, e ele nos retribui com um gesto de carinho, de gratidão. Isso é o que faz valer a pena.
Lembro aqui uma paciente muito especial que conheci na enfermaria de Neurologia de um hospital público de Sobral. Na primeira vez que a vi, visando colher sua história clínica e realizar exames neurológicos, senti algo especial por ela. Suas palavras simples, o jeito de olhar, o aspecto maternal, fizeram-me prolongar um pouco mais nossa conversa. O tumor cerebral que a acometia não retirou-lhe os valores humanos conquistados com o tempo. De modo natural (e menos investigativo) contei-lhe um pouco da minha história também, afinal os pacientes se interessam muito em saber sobre aqueles "homens e mulheres de branco". Alguns dias depois, reencontramo-nos novamente na enfermaria. Ela já havia sido operada. Acompanhada da filha, ela esboçou um sorriso emocionado, apesar da expressão facial de cansaço pelos momentos sofridos. Ela se lembrou de mim, e isso me deixou muito feliz, principalmente quando me chamou de "meu filho". Nós ficamos um bom tempo proseando, falando sobre família, amigos, cidades de origem etc. Queria eu ter todo o tempo do mundo pra poder ficar conversando com aquela agradável senhora, poder fazer-lhe esquecer de tudo de ruim que já passou, poder amenizar sua dor, ser alguém sempre por perto. Mas infelizmente, não é assim que as coisas acontecem. Minhas obrigações como estudante limitam meu tempo para outros afazeres. Ao me despedir, recebi o mais carinhoso, terno e demorado abraço que poderia ter naquele momento. Em lágrimas, ela me agradecia, apesar de eu ter feito quase nada, desejou-me as melhores bênçãos, tais como as que minha mãe me deseja diariamente em suas orações. Senti-me pleno, satisfeito pelo que eu escolhi fazer, por ter escolhido estar de perto das pessoas. Depois, em silêncio, agradeci a Deus por me proporcionar esses momentos, que, de tão especiais, fazem qualquer esforço valer a pena.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Uece desenvolve 1ª vacina de origem vegetal no mundo para o combate ao vírus da dengue

A primeira vacina de origem vegetal no mundo é produzida por pesquisadores daUniversidade Estadual do Ceará (Uece). Segundo a professora Isabel Guedes, bioquímica responsável pela pesquisa, o processo é totalmente pioneiro: “até o momento nenhuma vacina no mundo tinha sido produzida à base de planta”, ressalta. Aliado a esse pioneirismo, a vacina busca atender uma necessidade cada vez maior da sociedade, que é o combate à dengue. Atualmente, a dengue é a arbovirose mais comum que atinge o homem, sendo responsável, segundo Organização Mundial de Saúde por cerca de 100 milhões de casos/ano em população de risco de 2,5 a 3 bilhões de seres humanos. Neste caso, a nova tecnologia, a primeira de origem vegetal, deverá combater os quatro tipos de manifestação do vírus, incluindo o hemorrágico.  O feijão de corda (vigna unguiculata) foi o vegetal utilizado no procedimento para produção de antígenos para combater o vírus da dengue.  No processo, os cientistas injetaram genes do vírus na planta, a qual desenvolveu as proteínas anticorpos capazes de gerar as defesas do organismo. A partir daí, os antígenos foram isolados, podendo então ser aplicados em forma de vacina. De acordo com os pesquisadores, uma única planta pode gerar até 50 doses de vacina. As vantagens da vacina desenvolvida pelos pesquisadores da Uece são inúmeras, dentre elas, o seu método inovador de produção, baixo custo e redução de reações alérgicas, comuns nas vacinas desenvolvidas em métodos tradicionais, que utilizam organismos vivos e vírus atenuados.
Teste foram positivos
Os resultados obtidos através de testes em camundongos foram positivos; os animais passaram a produzir anticorpos protetores contra a dengue. O próximo passo é iniciar testes clínicos em seres humanos. Para Isabel Guedes, “é necessário desenvolver drogas eficientes no combate à dengue. Essa é uma preocupação mundial. Além disso, o custo de prevenção pode ser menor do que os tratamentos convencionais de pacientes infectados”, destaca. A Uece protegeu a pesquisa por meio do seu Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), através de depósito de pedido de patente junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Neste momento, o NIT e a Rede de Núcleos de Inovação Tecnológica do Ceará (Redenit-CE) estão trabalhando na transferência desta tecnologia para o mercado, a fim de que a vacina possa ser produzida em escala industrial e beneficiar, assim, a população.
fonte: Diário do Nordeste

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O custo da vida



Os egípcios já tratavam câncer com instrumentos cirúrgicos rudimentares que permitiam operar tumores superficiais. Com a descoberta da radioatividade no início do século 20, surgiu a radioterapia. As radiações ionizantes possibilitaram destruir tumores inoperáveis, e complementar cirurgias incapazes de erradicar a doença.
Na Segunda Guerra Mundial, médicos do exército americano observaram que os técnicos envolvidos nos testes com a mostarda nitrogenada como gás de guerra, apresentavam queda do número de glóbulos brancos. Como nas leucemias e linfomas as células malignas são justamente os glóbulos brancos, administraram mostarda nitrogenada para portadores dessas doenças e obtiveram regressões dramáticas. Estava inaugurada a era da quimioterapia, método que utiliza moléculas capazes de destruir as células em multiplicação.
Foi uma mudança radical do paradigma: enquanto cirurgia e radioterapia podiam curar apenas tumores localizados, a quimioterapia atacava as células disseminadas pelos diversos órgãos, em última análise, responsáveis pela incurabilidade. A segunda metade do século 20 assistiu ao desenvolvimento de diversos quimioterápicos que revolucionaram o tratamento de leucemias, linfomas, câncer de testículo, mama, ovário e muitos outros. Vieram, em seguida, os estudos comparativos conduzidos com diversas drogas, em milhares de pacientes reunidos em múltiplos centros de vários países, para avaliar a eficácia, quantificar toxicidades e analisar os índices de cura. Entramos na fase da medicina baseada em evidências científicas, por meio das quais o médico pode tomar decisões menos sujeitas a vieses individuais. A quimioterapia, no entanto, tem limitações: as drogas causam efeitos colaterais, induzem respostas que nem sempre são duradouras e não agem contra todos os tipos de tumor.
Como avançar?
Nos últimos trinta anos, a biologia molecular demonstrou que, para multiplicar-se, uma célula recebe e responde a sinais que chegam à membrana externa e são transmitidos através do citoplasma para que o DNA presente no núcleo inicie o processo de divisão celular. Essenciais na gênese do câncer, esses mecanismos envolvem uma cascata de moléculas que se comunicam umas com as outras, numa rede de incrível complexidade.
A indústria farmacêutica decidiu, então, investir na busca de “moléculas inteligentes”, capazes de neutralizar a atividade das moléculas responsáveis pela transmissão desses sinais que disparam a multiplicação das células malignas. Nasceu a terapia-alvo.
A estratégia permitiu descobrir moléculas de grande impacto na cura das leucemias mielóides crônicas e de alguns tipos de linfomas. Outras demonstraram utilidade no câncer de rim, em 15% a 20% dos casos de câncer de mama, em poucos casos de câncer de pulmão, principalmente entre mulheres orientais que nunca fumaram, além de outras situações raras e específicas.
A expansão dessa área foi vertiginosa. No momento, são incontáveis as “moléculas inteligentes” em fase de estudos clínicos. Para tornar tudo mais difícil, no entanto, as células tumorais se defendem do ataque que as atingiu em determinado alvo. Reagem ao bloqueio daquela via, criando novos caminhos para assegurar-lhes o direito de cumprir seu destino: crescer e multiplicar-se. Tal habilidade exige descobrir novas moléculas para inativar alvos alternativos. Quantas serão necessárias para controlar a doença, duas, três, cinco? Quem sabe? Dependerá da criatividade das células malignas. Se é assim, quantos remédios o doente precisará tomar? Durante quanto tempo? Qual será a toxicidade? Valerá a pena viver mais, se for para passar os dias com náuseas, astenia, dores musculares, diarreia e anorexia?Além dessas dúvidas, há o problema do vil metal. Essas drogas chegam ao mercado a preços exorbitantes. Medicamentos que custam 5 mil dólares por mês são rotineiros, alguns ultrapassam a barreira dos 10 mil. Esses custos são insuportáveis até para os países mais ricos do mundo. No Brasil, quem arcará com eles? O SUS? Os planos de saúde?
Por Dráuzio Varela

Ao lado do leito

Inúmeros pacientes, inúmeros problemas, inúmeras dores. Uma enfermaria de qualquer hospital pode ser descrita assim. Médicos, enfermeiros, auxiliares e outros profissionais desdobram-se para proporcionar um pouco mais de conforto diante da saúde frágil dos enfermos. Mas, às vezes, esquecemos que ao lado da maioria dos pacientes existe alguém que também sofre por ter seu ente querido naquela situação. São pais, mães, filhos, tios, primos, amigos, que vivem num estado de ansiedade que, se paramos um pouco observando-os, seremos capazes de sentir e de nos comover. Eles também são pacientes, são dignos de atenção. Recordo-me de uma situação que presenciei na enfermaria de um hospital público de Sobral. Havia uma criança de 4 anos no leito pediátrico, recém-admitida por crises de epilepsia. Ao lado do leito, sua mãe chorava angustiada, sozinha numa cadeira de balanço já bastante envelhecida pelo tempo. Aproximando-me, perguntei à mãe o que havia se passado com a criança. Depois da resposta, senti que ela precisava dizer algo mais e ,então, dispus-me de modo que ela pudesse falar. Sem rodeios, ela disse:
_ Doutor, ela não me reconhece! Ela não me chama de mãe! Mas eu sou  mãe dela...
Eu entendi o que se passava e percebi que ninguém naquela enfermaria disponibilizou um pouco do seu tempo pra explicar para aquela mãe angustiada o que representava o comportamento da filha. Conferi o prontuário pra me certificar do medicamento em uso e expliquei que a reação da criança era um efeito adverso, um efeito colateral comum e bastante frequente quando da administração de Fenitoína, um anticonvulsivante, ou seja, confusão mental, alteração comportamental, alteração do estado de ânimo etc. Bastou alguns minutos, e a mãe já se reconfortava com o que de fato acontecia com sua criança. É verdade que, às vezes, precisamos ter sensibilidade para percebermos que o sofrimento pode estar também no acompanhante, bem o lado do leito.